domingo, 22 de novembro de 2015


Nada de Baunilha:

Por: Gisele Resende

A moça parecia ser frágil com sua carinha de flor, mas carregava uma multidão de pensamentos. Nasceu com bronquite, mas se curou na batucada da vida tinha ginga nas cadeiras e possuía um andar de matar qualquer malandro de desejo, mas a moça era de respeito. Passava o carnaval na Bahia fã da Claudinha, mas preferia a Ivete diva do seu coração. Tentava fazer dieta, mas não conseguia comer sem feijão.  Não gostava de palavras ao vento, mas sim do vento despenteando o seu cabelo. Gostava do certo e do errado,  dos mistérios da vida. Carregava todas as Marias em si, já tinha sido mocinha e bandida. Santa e meretriz porque a moça era feliz, não ligava para o disse me disse da rapaziada. Sambava até o chão e vivia repetindo: Hoje, baunilha não!



sábado, 21 de novembro de 2015

O BONDE 70:

Por: Gisele Resende

Isabel estava próxima de completar 90 anos, mas, contrariando o dito popular de que quando envelhecemos voltamos a ser criança, não se sentia nada bem. Sentia-se como uma pedra atravancando o caminho, sentia um peso enorme impedindo-a de olhar ao redor esquecendo-se de viver. Nasceu com um pouquinho mais de 10 meses de gestação, pós-termo, talvez por isso gostasse tanto do tempo e não tivesse pressa. Aprendeu a ser velha de tanto saber esperar, e assim adorava contar as coisas para passar as horas tendo como melhor companhia uma bolsinha de dinheiro com umas poucas lembranças: um par de brincos envelhecido, sua identificação da época do trabalho como funcionária pública e seu dinheiro, que mesmo pouquinho, não podia deixar de estar lá, para contar as notinhas... A cada momento de nostalgia não cansava de falar para toda geração:

 – Eu já andei de bonde, sabia? O bonde 70. Ah! Fui da época do bonde... E, assim lá ia ela, por infinitas estórias contadas com saudade do passado. Era nítido como Isabel ficou presa no bonde 70 e não o deixou passar, como ela se esqueceu de viver, deixar viver.

Era a filha mais velha de Dona Constância e Seu Ferreirinha, casal pacato do bairro da Tijuca que teve 12 filhos: 7 meninos e 5 meninas, dois natimortos. Isabel foi a zeladora de todos, ajudava a mãe que não tinha descanso, pois parir foi o seu ofício durante toda uma vida. Seu útero, um jardim gerando vários botões de flores. Um dia secou e morreu. Isabel tornou-se ainda mais responsável por seus irmãos. Seu Pai, que era funcionário público, levava os filhos mais velhos para trabalhar com ele. Naquela época passava-se ao serviço público por conhecimento e influência. Porém, mesmo trabalhando, a mocinha não perdeu o seu destino de vista, auxiliar os irmãos mais novos no que necessitavam, e por aí os anos passaram.

Hoje, Isabel, vive na casa da sua irmã e é cuidada por ela, e isso a deixa muito triste, pois envelheceu, mas não aprendeu a envelhecer. Não teve sua própria história: sua casa, seus filhos, seus amigos... Apenas teve preocupações. O quarto é o seu lugar preferido. Quando passamos pela porta, ficamos a escutar suas lamentações, seu choro; prefere estar com as suas lembranças, suas indagações que muitas nem chegamos a conhecer, parece que ficou de mal com a vida, que não gosta de gente e no fundo, bem no fundo, Isabel reconhece que escolheu ser sozinha, que não deu uma chance para si e para o outro e que cuidar nunca poderia ter sido sinônimo de obrigação e anulação e sim de prosperidade...
CONTO DE AREIA DE MARIA TEREZA:

Por: Gisele Resende

Tereza que era Maria também, mas muitas vezes preferia ser só Tereza, desde criança, foi dada a uma fraqueza pulmonar. Sua aparência era franzina, o seu jeito de engolir o ar como quem devora o vento fazia com que seus pais se mantivessem em permanente estado de preocupação. O que seria dessa menina? Por quantos ventos fortes passaria e quantos a derrubariam? Sempre pensando em sua resistência faziam o melhor, ou o que achavam melhor para fortalecer seu ânimo: limpeza da casa, alimentação regrada, vitaminas, gemadas, garrafadas e bastante mingau de fubá como se de grão em grão o pulmão pudesse se encher de sangue vivo. A benzedeira, essa foi o último recurso. Cansados de tantas crises de bronquite, do vai-e-vem do Hospital e das injeções de adrenalina, apelaram para os Santos. Tanta reza e ladainha que no final saíam com a certeza do dever cumprido, mas por mais uma noite de lua posta no céu, lá estava o chiado no peito da menina assobiando de novo, cantando a canção da madrugada. Sua mãe já tinha uma cadeira cativa ao lado da cama, dormia e acordava como quem espera o canto triste da morte, com a certeza de que ela viria.

 Assim foi dos 9 aos 13 anos. O Pai não se conformara com o destino da menina e conversava com a esposa:
— Como pode alguém gritar dia e noite querendo respirar? Tem alguma coisa de estranho... Essa menina está sendo criada do jeito certo, será carinho demais ou ausência?
 — Não sei homem! Os médicos dizem que é a tal da bronquite que afeta os pulmões e vai apertando as veias, não deixam espaço para o ar entrar pelos brônquios. Ai, meu Deus! Tanto nome  difícil na vida começando pelo que forma o corpo da gente seria tão mais simples se fosse só cabeça, pernas, braços e barriga.
 — Mulher! Deixa de ser complicada, se o Doutor falou que é assim, vamos entender essa coisa de bronquite, só compreendendo é que podemos ajudar a nossa filha a respirar sem que o custo seja o seu cansaço e a falta de disposição.

 A esposa se entregava àquele marido amado de sua alma, e a sua família como a vela se entrega à chama e chora no fogo expedido pela alegria, deixando escorrer o pranto ardido da dedicação. Assim, ela fazia toda inteira para sua casa e filhas sem piscar ou tremer, e defendia o lar como a leoa defende a cria. Aceitava o seu dever de mulher e seguia, só seguia a voz do marido.
 – Não vou complicar. Em tudo o que o médico mandar, vou ser a primeira a cumprir. Quero ver Terezinha brincando, buscando as flores no jardim sem precisar escolher entre o malme-quer e o bem-me-quer... Que ela possa ter a benção natural de respirar, sem sentir. O marido, buscando alguma solução para ajudar a filha, disparou.
 – Ouvi dizer que remédio para aflição de pulmão é água. A pessoa tem tanta ansiedade no peito que precisa ser lavada, pois essa ansiedade vira cinza e a sufoca. Daí, com um banho, a água limpa vai abrindo as veias.
 – Quem foi que te falou isso? E por que Terezinha teria tanta ansiedade no peito? – Foi um cliente que disse que remédio bom pra isso é nadar, abrir os braços e abraçar as águas. Ele falou que seus pensamentos são muito grandes para a sua idade, pensa muito... Aí o pulmão tem que ficar apertadinho para aguentar a ligeireza das suas vontades.
 – Vamos perguntar ao médico, só perguntando para saber. O médico confirmou que, de fato, podia ser bom, não prejudicaria em nada. Levaram a ideia à menina e em pouco tempo tudo já estava acontecendo. Ela e sua irmã, Cristina, brincavam com as águas, e na brincadeira ia curando seus medos. Durante alguns anos as crises foram se espaçando. Tereza se aprimorou cada vez mais. Gostava do esporte, participava das competições, aprendendo que ganhar saúde física era bom, mas ganhar confiança em se controlar e esperar o momento certo para mergulhar, nadar e chegar do outro lado era realmente mágico... Gostava de todas as modalidades, mas o que a deixava mais alegre era nadar o estilo borboleta. Alguns a chamavam de golfinho, para a menina borboleta diziam que seus braços eram as asas que se levantavam das águas para alçar voo, uma, duas, três... Tantas vezes até chegar à margem do lado de lá.

Tereza foi boa nadadora, conseguiu algumas medalhas, esqueceu-se da bronquite, dos assobios e dos chiados de gato no pulmão. A vida tornou-se mais úmida, pela lavagem das aflições. Até que um dia depois de brincar na areia da praia e querer se jogar no mar, olhou para a imensidão azul e percebeu o quanto era pequena. Imediatamente se lembrou de uma frase que sua mãe sempre dizia:
 – O mar não tem cabelo, portanto, menininha, cuidado! Mesmo sabendo nadar, nunca se sabe nada do mar... Mesmo diante do temor do mar se lançou, tentando se desamarrar da força das ondas, saiu de um lado, entrou em outro e, mais uma vez, se questionou, entre braçadas:
 – Como na piscina é tão mais fácil! É previsível, controlado e cheio de gente do outro lado esperando. No mar, sou só eu e ele apenas.

Entendeu o que sua mãe dizia. Esteve alguns minutos sentindo seu cheiro, sua cor, entendendo o tempo do Mar. Como Ele podia se agitar e depois se acalmar? Pensou na areia no fundo do mar. O mar tem fundo, apoio e eixo. Pensou, pensou e pensou no tempo que gritava pelo ar e descobriu nas águas sua cura, a calmaria para aquietar sua sede. Descobriu pelas águas o toque da sabedoria em se deixar apenas ser. Mergulhou mais uma vez sentiu o seu silêncio e o interior que gritava seu nome:
 – Vem Tereza, vem nadar no mar, vem me abraçar, sentir minha água salgada igual as suas lágrimas de tanto chorar... Tereza ficou surpresa, pois sentia que ele a conhecia tanto, tanto que se espremeu de vergonha, depois, sentada na areia. Viu que as conchas se entregavam às suas lambidas e o seguiam. Era como alguém que quisesse ensinar a cura dos quebrantos. Ela, menina, avistava a linha do horizonte, percebia que em algum lugar chegaria e que tudo tem princípio, meio e fim e alguns misté- rios. Pensou nos seres do mar, nas sereias, dragões, tubarões... Teve medo e mais uma vez exclamou:

– A piscina é rasa. Sinto o meu pé, consigo enxergar! E a voz lhe assegurava algo novo: – Vem Tereza, vem para o Mar... Ela descobriu que o silêncio a confortava, não a entristecia, ao contrário alimentava a sua alma e a jogava nesta busca de si.
– Acho que quando se procura muito o desejo pela vida corremos o risco de nunca encontra-lo, mas quando respeitamos o tempo, ele nos traz o que jamais pensamos desvendar. A minha inspiração é como as ondas, maré cheia, baixa... Vai e vem. Como água que escorre grossa depois afina. E vendo o azul do mar e as espuminhas brancas, que ora o cobria como véu de Nossa Senhora, tocou-lhe serenamente com seus pés e disse:

– Muito prazer. Estou aqui. Que queres de mim? Sou Tereza! E o mar cheio de emoção lhe beijou e a reverenciou:
– Tereza, conhecestes as águas calmas, agora estás preparada; eu sou o mar, que te arrasta e devolve para si, eu sou a tua vida!

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Morrer para recomeçar

Por: Gisele Resende


O velório já havia começado todos se encontravam na sala ela preferiu realizar o final de mais um ciclo naquele lugar, convenceu-se que ali as lembranças eram mais fortes. A televisão o velho sofá surrado afundado de tanto se deitarem e o lustre em forma de castiçal, presente de casamento da tia Lindalva. Enquanto ia se penteando passando o batom e fechando o zíper do vestido, no quarto, escutava o burburinho as falas baixinhas, mas sua audição era tão precisa que ouvia tudo: Por que será que terminou assim? Em algum canto da sala alguém pronunciava...

Não se deixou entristecer foi andando devagar encima do seu melhor salto alto fez questão de usar combinando com a sua boca vermelha, boca de quem queria agora devorar o mundo sem nenhuma cerimônia. Desejava chegar à sala apenas sem medo, a morte realmente o levou agora queria encarar a vida.

E assim chegou causando impressão. Chegou para acompanhar seu libertar por cada peça que construiu a trajetória da sua vida. Resolveu fazer um leilão de tudo que havia adquirido durante anos de casamento, a relação acabou já não servia mais queria renascer e para isso tinha que matar e morrer. Foi assim que teve a ideia de se desfazer de tudo e como num velório se despedir. Cada caminho de mesa, prato, talher e até o tão falado lustre que por anos ficara pendurado no teto iriam descer e ganhar uma novo endereço, assim como ela. Ao terminar já havia enterrado todos os fantasmas, fechou a casa desceu a rua e saiu para nunca mais voltar. Agora era apenas a mulher dos sapatos vermelhos.